Vou falar de um assunto que raramente aparece nos perfis do nicho, mas que é dos mais importantes pra quem trabalha com o corpo e a imagem: a lei. Mais especificamente, o que o Reino Unido está prestes a mudar, e por que isso interessa diretamente a você.
Primeiro, a honestidade que esse tema exige: nada disso já está em vigor. Estamos falando do Crime and Policing Bill 2024-26, um projeto de lei britânico. A Câmara dos Lordes terminou suas fases em março de 2026 e fez 532 emendas ao texto; a Câmara dos Comuns começou a apreciar essas emendas em abril de 2026. Até o projeto virar lei de fato, com a sanção real, nada disso vale na prática. Mas a direção é clara, e conhecer essa direção é o que separa quem trabalha protegida de quem trabalha no escuro.
Dentro desse pacote enorme de mudanças, existem cinco que protegem diretamente a profissional do sexo, a acompanhante e, na verdade, qualquer mulher exposta ao risco digital. Vamos a elas.
1. Nudez falsa com inteligência artificial vira crime
Essa talvez seja a mais importante para o nosso tempo. O projeto cria um novo crime de disponibilizar ferramentas digitais de nudificação, os aplicativos e serviços que pegam a foto de uma mulher vestida e geram, com inteligência artificial, uma versão nua falsa dela.
Repare na inteligência da medida: ela não mira apenas quem cria a imagem, mas quem oferece a ferramenta que permite criá-la. Para quem tem a imagem pública, como toda profissional que se divulga na internet, isso é uma blindagem contra um tipo de violência que cresceu absurdamente com a IA. A sua foto vestida deixa de ser matéria-prima para uma montagem que pode te expor, te chantagear ou te difamar.
2. Print e adulteração de imagem íntima também entram na lei
O Reino Unido já punia a divulgação de imagem íntima sem consentimento, o que a gente conhece como pornografia de vingança. As emendas ampliam esse escopo, criando novos crimes ligados a imagens íntimas, incluindo tirar e compartilhar capturas de tela de conteúdo íntimo e produzir imagens adulteradas.
Na prática, condutas que antes ficavam numa zona cinzenta passam a ter nome e punição. Quem printa uma chamada de vídeo íntima e espalha, quem edita uma imagem sua para humilhar ou expor, tudo isso passa a responder. Para quem trabalha com conteúdo e presença, é a diferença entre estar refém do celular de qualquer um e ter a lei do seu lado.
3. Ataque por ódio ao seu sexo ou orientação passa a pesar mais
O projeto amplia as regras de hate crime, que já preveem penas maiores para crimes cometidos com hostilidade contra raça ou religião, para incluir características como deficiência, orientação sexual, identidade transgênero e sexo.
O que isso significa para você: se um crime é cometido contra você motivado por ódio ao seu sexo ou à sua orientação, ele passa a ser tratado com mais rigor. Num mercado em que a mulher é frequentemente alvo justamente por ser mulher, isso encarece o preço de quem escolhe atacar.
4. Reparação: perdão a quem foi criminalizada no passado
Aqui há duas medidas de justiça histórica, e ambas dizem respeito diretamente ao nosso universo.
A primeira perdoa qualquer pessoa que, ainda criança, tenha recebido advertência ou condenação por uma antiga infração de prostituição infantil. A lógica mudou: hoje se entende que uma criança nessa situação era vítima de exploração, não autora de um crime. O perdão corrige uma injustiça que perseguia essas mulheres por décadas.
A segunda perdoa mulheres condenadas ou advertidas por infrações da lei do aborto em relação à própria gravidez, e determina o apagamento dos registros policiais. É o reconhecimento de que criminalizar a mulher pela própria decisão sobre o próprio corpo é uma página que o direito está virando.
5. A IA fora da lei: robôs que geram conteúdo ilegal
Além da nudificação, o projeto mira os robôs de inteligência artificial programados para produzir conteúdo ilegal, incluindo chatbots capazes de gerar material criminoso. É a lei correndo atrás de quem se esconde atrás da máquina, tratando a ferramenta automatizada como parte do crime, e não como desculpa para ele.
O que tudo isso te diz
Repare no movimento maior. O mundo está construindo, lei por lei, uma muralha em torno da imagem da mulher, justamente porque a tecnologia derrubou as muralhas antigas. Quando a inteligência artificial tornou trivial fabricar uma imagem falsa, o direito respondeu tornando isso caro e criminoso.
Para você, a lição prática é dupla. Primeiro: a sua imagem tem dono, e o dono é você. O que era terra de ninguém está deixando de ser. Segundo, e talvez o mais importante: informação é proteção. A mulher que conhece as regras do país onde trabalha anda protegida; a que não conhece anda exposta sem nem saber que está.
Se você trabalha fora, ou pensa em ir, acompanhar esse tipo de mudança não é detalhe jurídico chato. É estratégia de sobrevivência e de poder. Porque no fim, quem conhece o jogo joga melhor.
Conteúdo educativo e informativo sobre legislação e direitos. Direcionado a maiores de 18 anos. As medidas citadas integram um projeto de lei em tramitação no Reino Unido e podem sofrer alterações até a sanção final. Este texto não é aconselhamento jurídico.
Fonte: UK Parliament, House of Commons Library, "Crime and Policing Bill 2024-26: Lords amendments" (CBP-10621), abril de 2026.



